O que acontece com a Igreja quando um grupo étnico local deixa de compartilhar o mesmo lugar? A Parte 2 da nossa série sobre deslocamento aborda essa questão e como a mudança de lugar — muitas vezes atravessando fronteiras nacionais — afeta a Igreja em sua vida e testemunho.
O que acontece com a Igreja quando seus membros não compartilham mais o mesmo lugar?
Na primeira parte desta série, exploramos como as Escrituras apresentam o movimento, o exílio e o deslocamento não apenas como experiências de perda, mas também como contextos nos quais Deus continua formando seu povo e levando adiante seus propósitos.
Da jornada de Abraão (Gênesis 12.1-4) ao exílio de Israel e à dispersão da Igreja primitiva, a narrativa bíblica nos lembra que o povo de Deus nunca foi definido inteiramente pela geografia. Isso levanta uma outra questão: o que acontece com a Igreja quando um grupo local de pessoas deixa de compartilhar o mesmo lugar?
Para os Cristãos em todo o Oriente Médio e Norte da África, essa não é uma questão teórica. Igrejas que antes estavam situadas em determinados vilarejos, bairros e edifícios históricos estão cada vez mais conectadas a comunidades dispersas por países e continentes. Famílias cujas raízes estão no Iraque, na Síria, no Líbano, no Egito ou no Sudão podem agora estar criando seus filhos na Europa, na América do Norte ou na Austrália.
A migração, portanto, faz mais do que apenas deslocar Cristãos de um lugar para outro. Ela remodela a própria geografia da comunidade Cristã. A Igreja não é mais simplesmente um grupo específico de pessoas em um determinado lugar; cada vez mais, ela é composta por grupos de pessoas que se encontram entre lugares.
Quando a Igreja atravessa fronteiras
Uma mulher do Iraque certa vez descreveu sua experiência com a igreja de uma forma que questionou a suposição de que a identidade Cristã de uma pessoa esteja ancorada em uma comunidade específica em um determinado lugar. Ela participava dos cultos na Alemanha, falava Árabe com sua família, mantinha contato com parentes no Iraque e continuava apoiando uma congregação e um ministério no país que havia deixado. Seus filhos estavam crescendo em um ambiente cultural diferente, mas as histórias, as orações e as tradições de sua herança Cristã continuavam fazendo parte da vida familiar. Quando perguntavam onde ficava sua igreja, a resposta não podia ser reduzida a um único local.
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A experiência dela reflete uma realidade cada vez mais comum entre os Cristãos do Oriente Médio. Para muitos, a migração não significa deixar uma comunidade Cristã e simplesmente ingressar em outra. Em vez disso, ela cria uma vida de relacionamentos contínuos que ultrapassam as fronteiras.
Isso não é algo totalmente novo na história da Igreja — encontramos movimentos semelhantes no Novo Testamento — mas, no mundo atual da migração, há alguns aspectos únicos a serem considerados. Uma pessoa pode frequentar uma congregação local em um novo país, mantendo-se, ao mesmo tempo, emocional, espiritual e materialmente ligada à igreja de origem. O culto pode ser realizado em Inglês, a oração pode continuar em Árabe e as responsabilidades familiares podem se estender por vários países. O sentimento de pertencimento Cristão é vivenciado não apenas dentro de um determinado lugar, mas também por meio dos relacionamentos que conectam esses lugares. Impulsionado em grande parte pela emigração, o Cristianismo do Oriente Médio tem registrado um crescimento significativo além de seu reduto tradicional. Estima-se atualmente que 7,7 milhões de Cristãos do Oriente Médio residam fora da região. [1]
Cristãs Iraquianas, deslocadas pelo terrorismo Islâmico. O que acontece com a Igreja quando seu povo deixa de compartilhar a mesma localização geográfica?
Tais experiências levantam uma importante questão eclesiológica: o que acontece com a Igreja quando um determinado grupo étnico deixa de compartilhar a mesma localização geográfica? E como a comunidade Cristã pode ser entendida quando o sentimento de pertencimento é mantido por meio da memória, dos relacionamentos, do culto e do cuidado mútuo além das fronteiras?
A Igreja primitiva oferece um importante ponto de partida teológico. Após a perseguição que se seguiu à morte de Estêvão, os crentes foram dispersos de Jerusalém. O que parecia ser uma ruptura devastadora tornou-se, inesperadamente, um meio pelo qual o Evangelho se espalhou: “os que haviam sido dispersos pregavam a palavra por onde quer que fossem” (Atos 8.4). Os crentes levavam mais do que uma mensagem. Levavam oração, adoração, comunhão, cuidado mútuo e testemunho para diferentes contextos. Desde seus primórdios, segundo o desígnio de Deus, a Igreja desenvolveu-se como uma comunidade capaz de transpor fronteiras geográficas, culturais e linguísticas.
Antióquia ilustra isso particularmente bem. Tornou-se um lugar onde crentes de diferentes origens se encontravam e onde surgiu uma comunidade Cristã distinta. Foi lá que os discípulos foram chamados de Cristãos pela primeira vez (Atos 11.26). A Igreja não se limitou a reproduzir Jerusalém em outro lugar; ela se enraizou em um novo contexto cultural.
Da fé herdada à fé viva
Para os Cristãos deslocados, o desafio é que o sentimento de pertencimento costuma ser preservado por meio da memória. Um templo pode não estar mais acessível; um vilarejo pode ter sido destruído; a casa da família pode ter sido perdida. No entanto, as pessoas se lembram de onde foram batizadas, dos líderes da igreja que serviram às suas famílias, dos hinos que cantaram e das festas que celebraram. Essas memórias fazem parte da visão teológica por meio da qual os Cristãos deslocados compreendem quem são.
Isso não é totalmente descabido. As Escrituras chamam repetidamente o povo de Deus a lembrar-se: “Lembrem-se dos dias antigos” (Deuteronômio 32.7). Da mesma forma, os Salmos preservam a memória de Israel como um meio de sustentar a fidelidade. Para as comunidades deslocadas, a memória pode resistir ao apagamento de pessoas, lugares e tradições e permitir que as histórias sejam transmitidas de uma geração para outra.
No entanto, a memória também apresenta um desafio. Como a Igreja pode se lembrar do passado com fidelidade sem ficar presa a ele?
Como a Igreja pode se lembrar do passado com fidelidade sem ficar presa a ele?
É compreensível que as comunidades de diáspora busquem preservar o que foi perdido, mas a identidade Cristã não pode ser sustentada apenas pela nostalgia. As gerações mais jovens precisam de mais do que histórias sobre os lugares que seus pais deixaram para trás. Elas precisam de uma fé viva que tenha significado nas culturas e sociedades onde vivem atualmente.
A tarefa, portanto, não é simplesmente preservar a identidade Cristã, mas traduzi-la fielmente.
A questão não é apenas: “Como podemos manter tudo como era?”, mas também: “O que devemos levar adiante e como isso pode se enraizar novamente?”. Essa questão se torna particularmente significativa ao longo das gerações. A primeira geração costuma carregar memórias diretas dos lugares que deixou para trás. Seus filhos podem conhecer esses lugares principalmente por meio de histórias de família, enquanto seus netos podem ter contato com eles por meio de fotografias, tradições e visitas ocasionais.
“A tarefa não é simplesmente preservar a identidade Cristã, mas traduzi-la fielmente.”
A Igreja, portanto, enfrenta uma questão teológica: como a identidade Cristã é transmitida quando a experiência geográfica não é mais compartilhada? A resposta não pode depender inteiramente da memória cultural. O chamado da Igreja não é simplesmente preservar a herança — por mais importante que ela seja — mas fazer discípulos de Jesus Cristo (Mateus 28.19-20) e servir fielmente onde Deus os colocou.
Pedro instrui os crentes dispersos: “cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros, administrando fielmente a graça de Deus...” (1 Pedro 4.10). A fé deve, portanto, ser vivida e manifestada em novos contextos. Como compartilhou Amira, do Sudão: “O deslocamento me ensinou que, mesmo quando deixamos para trás lugares familiares, nossa identidade em Cristo permanece, e Deus continua abrindo novos caminhos para o testemunho, o ensino e o discipulado.”
Quando o estrangeiro se torna um vizinho
As Escrituras ordenam repetidamente ao povo de Deus que acolha o estrangeiro: “Amem os estrangeiros, pois vocês mesmos foram estrangeiros no Egito” (Deuteronômio 10.19). Da mesma forma, a Carta aos Hebreus exorta os crentes: “Não negligencieis a hospitalidade” (Hebreus 13.2, ARA).
Para os Cristãos deslocados, esse mandamento tem um significado profundo. Eles sabem o que significa chegar a um lugar desconhecido, lidar com outro idioma e outra cultura, e se perguntar se realmente terão um lugar ao qual pertencer.
No entanto, os Cristãos deslocados não são apenas destinatários da hospitalidade. Eles também podem se tornar anfitriões. Refugiados e migrantes são frequentemente vistos principalmente por meio de sua vulnerabilidade e necessidade. Sua vulnerabilidade é real, e a Igreja deve responder com compaixão e cuidado prático. Mas os Cristãos deslocados também são portadores de dons, sabedoria, discernimento teológico e vocação missionária. Eles podem plantar igrejas, discipular outras pessoas, ensinar, evangelizar, servir às congregações locais e acolher outros estrangeiros. Eles se tornam dons para seus novos contextos.
A migração convida a Igreja a redescobrir o significado teológico da hospitalidade
A pessoa que passou pela experiência do deslocamento pode ter uma capacidade especial de reconhecer a solidão dos outros. O deslocamento pode, portanto, tornar-se — sem romantizar sua dor — um contexto do qual surgem novas formas de serviço Cristão. Assim, a questão não é apenas: “Como a Igreja pode ajudar os Cristãos deslocados?”, mas também: “O que Deus pode fazer por meio dos Cristãos deslocados?”
Uma mesa que atravessa fronteiras
Talvez em nenhum outro lugar essa transformação se expresse mais claramente do que ao redor da mesa. A comida carrega memórias. Para as comunidades deslocadas, as refeições podem preservar relacionamentos e tradições quando muitas outras coisas mudaram, além de abençoar aqueles em seu novo contexto com essas experiências preciosas. Receitas passadas de uma geração para outra podem manter as conexões com o lar, enquanto a hospitalidade pode se tornar um meio de reconstruir a comunidade.
A mesa Cristã, no entanto, carrega um significado mais profundo. Jesus repetidamente reunia as pessoas em torno de refeições, comendo com aqueles que eram excluídos e desafiando as barreiras que separavam as pessoas umas das outras. O Novo Testamento apresenta a Igreja como um único corpo reunido em Cristo, em vez de ser definida por nacionalidade ou geografia. “Há um só corpo e um só Espírito” (Efésios 4.4), e aqueles que antes eram “estrangeiros e peregrinos” tornam-se “da família de Deus” (Efésios 2.19, ARA).
“O Novo Testamento apresenta a Igreja como um único corpo reunido em Cristo, e não como algo definido por nacionalidade ou geografia.”
A unidade Cristã não exige uniformidade cultural. Na verdade, o Novo Testamento indica claramente o contrário: a sabedoria de Deus se manifesta por meio de judeus e gentios unidos em um único corpo (Efésios 3.4-6). Cristãos Árabes, Africanos, Europeus e Asiáticos mantêm histórias, línguas e tradições específicas – mas essas diferenças podem se tornar dons dentro da comunhão mais ampla do corpo de Cristo.
Para uma Igreja gradualmente moldada pela migração, isso oferece uma importante visão teológica: a diferença não precisa se tornar divisão, e o deslocamento não precisa resultar na perda do sentimento de pertencimento.
A migração também desafia suposições convencionais sobre o que constitui uma comunidade Cristã. Uma congregação não se limita necessariamente àqueles que se reúnem todos os domingos no mesmo edifício. Embora isso não substitua a integração na igreja local, as famílias podem permanecer conectadas além das fronteiras; os líderes da igreja podem continuar cuidando de membros que se mudaram a milhares de quilômetros de distância; as igrejas podem manter relacionamentos por meio da oração, do apoio financeiro, da comunhão online e do ministério compartilhado.
A comunidade Cristã na diáspora
Nesta discussão, a pesquisadora Fiona McCallum Guiney nos ajuda a compreender o que significa ser uma comunidade Cristã na diáspora.
Como resultado da migração, as comunidades Cristãs do Oriente Médio estabeleceram uma presença global, particularmente em muitos países Ocidentais, onde contribuem ativamente para a vida econômica e social. As igrejas anfitriãs têm respondido aos efeitos do deslocamento de alguns de seus novos membros, oferecendo uma variedade de serviços espirituais, práticos e culturais, o que permite que essas igrejas mantenham seu papel central na preservação da identidade, da fé e do patrimônio da comunidade. Organizações lideradas por leigos também têm desempenhado um papel vital no apoio aos recém-chegados e na manutenção da continuidade cultural.
Embora esses esforços sejam frequentemente limitados pelo tamanho da comunidade, pela dispersão geográfica e por restrições de recursos, as redes da diáspora servem como canais valiosos para o compartilhamento de recursos e o fortalecimento da identidade coletiva.[2]
Assim, está surgindo uma nova geografia eclesial: as comunidades Cristãs podem ser simultaneamente locais e transnacionais, enraizadas em determinados lugares e, ao mesmo tempo, conectadas ao Corpo de Cristo como um todo
A tecnologia digital intensificou essa realidade. Embora grupos do WhatsApp, cultos transmitidos ao vivo, encontros de oração online e educação teológica possam sustentar relacionamentos que, de outra forma, poderiam desaparecer, a tecnologia não pode substituir a comunidade Cristã presencial. O Cristianismo é uma fé encarnacional, e os crentes são chamados a se reunir, adorar, comer e servir juntos. No entanto, os espaços digitais podem servir como pontes importantes para comunidades cujas circunstâncias geográficas foram fragmentadas pela migração.
A migração Cristã do Oriente Médio é frequentemente retratada principalmente como uma história de declínio: as igrejas estão ficando vazias, as comunidades estão encolhendo e as populações Cristãs históricas estão diminuindo. Há uma verdadeira tragédia nisso, e ela não deve ser minimizada. As pessoas precisam de lares, as comunidades precisam de estabilidade, e a perda da presença Cristã histórica tem importância.
No entanto, o declínio não é toda a história, nem é o seu fim. Os Cristãos também estão levando sua fé para novos lugares, estabelecendo congregações, criando filhos na fé, servindo aos vizinhos e construindo relacionamentos entre culturas. Sua experiência de viver entre mundos pode se tornar um recurso teológico e missionário. Eles conhecem a dor da exclusão e o significado do acolhimento. Eles compreendem a vulnerabilidade do estrangeiro e a importância do sentimento de pertencimento. Essas experiências podem capacitá-los a se tornarem construtores de pontes em sociedades cada vez mais marcadas pela migração e pela fragmentação. De fato, é a sabedoria de Deus que se manifesta (Efésios 3.10).
Uma Igreja entre lugares
O futuro do Cristianismo no Oriente Médio talvez exija ir além de uma simples distinção entre terra natal e diáspora. A Igreja não está meramente “aqui” ou “ali”; ela pode habitar o espaço entre ambos. Essas jornadas não apagam os lugares que as pessoas deixaram para trás, nem os Cristãos são definidos exclusivamente pelos lugares aos quais chegam. Eles pertencem a Cristo.
Paulo lembra aos crentes que eles são membros da família de Deus, uma família maior do que qualquer nação, denominação ou fronteira geográfica.
A Igreja entre lugares pode se tornar uma Igreja que atravessa fronteiras, acolhe estrangeiros, habita múltiplas culturas e forma comunidades de pertencimento onde quer que o povo de Deus se encontre. Os Cristãos que chegam a novos países não devem ser considerados meramente como pessoas a serem integradas às estruturas existentes. Eles são igualmente membros do corpo de Cristo, trazendo dons, experiências e conhecimentos teológicos que podem enriquecer a Igreja como um todo.
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A hospitalidade Cristã, portanto, vai além da pergunta: “Como podemos acolhê-los?”. A questão também é: “Em que a Igreja pode se tornar por causa da presença deles?”. A migração desafia a Igreja a recuperar uma compreensão mais profunda de si mesma: não como um conjunto de edifícios ou comunidades fixadas permanentemente dentro das fronteiras nacionais, mas como um povo enraizado em Cristo e chamado a manifestar sua presença onde quer que se encontre.
Essa visão se reflete no trabalho do Ajuda Barnabas, à medida que caminhamos ao lado de Cristãos deslocados, atendendo às suas necessidades práticas e possibilitando que continuem vivendo, adorando e contribuindo como membros do corpo global de Cristo. Esse trabalho também pode criar oportunidades de conexão, aprendizado e participação em contextos onde o deslocamento desestruturou comunidades já estabelecidas. Dessa forma, o apoio prático pode ir além das necessidades materiais imediatas, ajudando Cristãos deslocados e marginalizados a desenvolver habilidades, permanecer conectados e continuar contribuindo para a vida de suas comunidades e da Igreja como um todo.
Leia mais: Teoria da migração e identidade Cristã no Oriente Médio: Parte 1
Na Parte 3, exploraremos as implicações missionárias dessa “Igreja entre lugares” que está surgindo: como o deslocamento está remodelando o testemunho, a liderança e a missão Cristã, e o que pode significar para os Cristãos participar da missão de Deus não apenas apesar de seu deslocamento, mas por meio dele.
[1] Andreas Schmoller, “Middle Eastern Minorities in Diaspora” (Minorias do Oriente Médio na diáspora), em Paul S. Rowe (org.), Routledge Handbook of Minorities in the Middle East (Manual Routledge sobre minorias no Oriente Médio) (Londres: Routledge, 2018), p. 354.
[2] Fiona McCallum Guiney, “Middle Eastern Christianity outside the Middle East” (O Cristianismo do Oriente Médio fora do Oriente Médio), em Mitri Raheb e Mark A. Lamport (orgs.), The Rowman & Littlefield Handbook of Christianity in the Middle East (Manual Rowman & Littlefield sobre o Cristianismo no Oriente Médio) (Lanham: Rowman & Littlefield, 2020), p. 568.