A Palavra de Deus diz, "Vocês sairão em júbilo e serão conduzidos em paz” (Isaías 55.12). Para os Cristãos em todo o Oriente Médio, o Natal deste ano se revelou um paradoxo vivo dessa promessa. Foi marcado por momentos de alegria e calor comunitário, mas simultaneamente ofuscado pela fragilidade, insegurança e tensões políticas e interreligiosas não resolvidas. Em cidades, vilas e bairros marcados por refugiados no Oriente Médio, os crentes comemoraram o nascimento de Cristo com gratidão e moderação, cientes de que a liberdade de fazê-lo não é segura nem garantida.
Um culto de Natal no Cairo, Egito
Tensões não resolvidas na Síria
Na Síria, o Natal de 2025 teve um peso histórico. Pela primeira vez desde a derrubada do governo do Presidente Bashar al-Assad em dezembro de 2024, e após mais de uma décadas de conlflitos devastadores, as celebrações públicas voltaram a cidades como Latakia e Al-Qusayr de uma forma que muitos descreveram como sem precedentes.
As ruas foram decoradas com luzes, os pátios das igrejas se encheram de fiéis e as árvores de Natal voltaram a ser colocadas nas praças públicas. Em Al-Qusayr, os moradores se reuniram na Igreja Mar Elias em torno de uma árvore decorada, em um momento que o ministro Issam Kasouha descreveu como "histórico". Para muittos Sírios, essas cenas representam muito mais do que uma festa sazonal. Elas simbolizam o anseio de recuperar a vida normal e reconstruir uma identidade cívica compartilhada após anos de fragmentação sectária, deslocamento em massa e traumas profundos. A época do Natal, com seu foco na paz e na encarnação, ofereceu um momento raro para respirar coletivamente.
Celebrações de Natal na Igreja Mar Elias em Al-Qusayr, na Síria [Crédito da imagem: @SanaEnOfficial/X]
No entanto, essa frágil esperança foi rapidamente posta à prova. Protestos eclodiram em toda a Síria depois que uma árvore de Natal foi incendiada na cidade de Suqaylabiyah. O incidente provocou comoção nas comunidades minoritárias, que já estavam ansiosas com seu futuro em um cenário político em constante mudança. Embora as autoridades tenham oferecido garantias, a violência simbólica de atacar uma árvore de Natal foi profundamente pertubadora.
O partido no poder, Hayat Tahrir al-Sham (HTS), um movimento Islâmico Sunita, anunciou que combatentes estrangeiros foram detidos em conexão com o incidente e prometeu proteger as liberdades religiosas. No entanto, as manifestações se espalharam até Damasco, ressaltando a rapidez com que a confiança pode se deteriorar em um país que ainda luta contra queixas não resolvidas, facções armadas e uma governança frágil.
Para os Cristãos Sírios, o Natal desde ano foi tanto uma declaração de esperança quanto um lembrete de vulnerabilidade. As celebrações iluminaram a possibilidade de uma vida cívica renovada, mas também expuseram a tênue linha entre a paz e o medo.
Um frágil vislumbre de paz em Belém e Gaza
Em Belém, a cidade que está no centro da história do Natal, a época continua sendo um evento cultural, espiritual e econômico determinante. Tradicionalmente, cultos à meia-noite, procissões festivas, feiras e decorações atraem tanto Cristãos locais quanto peregrinos internacionais. Após dois anos de interrupção, as luzes e feiras de Natal voltaram no final de dezembro de 2025, oferecendo uma sensação cautelosa de renovação em meio à contínua tensão política e econômica.
O lema das celebrações deste ano foi "Levanta-te e brilha”, extraído do livro de Isaías. A frase carrega um significado profundo. As crianças olhavam com os olhos arregalados para a imponente árvore de Natal; escoteiros, meninos e meninas, tocavam gaitas de foles pelas ruas; e corais entoavam hinos apreciados por gerações em louvor ao Menino de Belém. Esses momentos de beleza e continuidade tiveram um significado especial em um contexto em que a normalidade é frequentemente quebrada.
Uma árvore de Natal decorada do lado de fora da Igreja da Natividade em Belém
No entanto, a proximidade entre a alegria e o sofrimento é inconfundível. A apenas 75 km de distância, em Gaza, o Natal foi celebrado com determinação silenciosa, em vez de festividades públicas. Após um cessar-fogo, a pequena comunidade Cristã, com menos de 600 Cristãos, se reuniu dentro da Igreja da Sagrada Família. Onde eles decoraram uma modesta árvore de Natal e cantaram canções Natalinas, mesmo com a comunidade Cristã ainda deslocada e em recuperação após dois anos de guerra.
Para muitos Cristãos de Gaza, este foi o primeiro Naral em anos a parecer minimamente normal, um vislumbre frágil e precioso de paz, repleto de gratidão e tristeza. À medida que os hinos soavam, as memórias de familiares e amigos perdidos permaneciam vivas. A celebração e o luto se abraçam, unidos pela fé.
Violência e vulnerabilidade na Cisjordânia
Nem todas as celebralções de Natal foram pacíficas. Na cidade de Jenin, no norte da Cisjordânia, uma árvore de Natal e um presépio do lado de fora da Igreja do Santo Redentor foram deliberadamente incendiados na madrugada de 22 de dezembro. O ato provocou danos parciais à decoração e enviou uma mensagem assustadora à comunidade Cristã local.
As autoridades informaram que imagens de vigilância levaram à prisão de três Muçulmanos suspeitos de terem realizado o ataque. A polícia descreveu o incidente como uma tentativa de incitar tensões sectárias, enquanto os líderes da igreja o condenaram como um "ato vergonhoso e repreensível”.
Em um ato poderoso, a comunidade instalou uma nova árvore de Natal antes do culto do dia de Natal. A decisão de prosseguir com o culto e a celebração visível foi, por si só, um testemunho de fé.
Os Cristãos representam menos de 1% da população da Cisjordânia, e incidentes como esse destacam as pressões que enfrentam, não apenas de elementos extremistas, mas também da instabilidade mais ampla ligada ao conflito regional, às dificuldades econômicas e à incerteza política. A queima de uma árvore de Natal pode parecer insignificante em um cenário marcado pela violência diária, mas para as comunidades minoritárias tem um peso simbólico muito significativo.
Celebração e reconhecimento no Egito
No Egito, o Natal deste ano teve um tom diferente, marcado pela visibilidade. Os Cristãos receberam com satisfação o reconhecimento do dia de Natal como feriado nacional, uma decisão que afirma o lugar da comunidade Cristã do Egito no tecido social do país.
Embora os desafios pemaneçam, o feriado público oferece um certo grau de proteção, legitimidade e liberdade para o culto coletivo. Igrejas em todo o país marcaram a época com cultos prolongados, música e encontros comunitários. As árvores de Natal, antes raras, agora são uma visão cada vez mais familiar nos espaços públicos.
“As árvores de Natal estão se tornando uma visão cada vez mais familiar nas ruas,” observou um pesquisador do Ajuda Barnabas, "e muitas igrejas comemoram com cultos prolongados, enchendo o ar com canções alegres em homenagem ao Menino de Belém.”
Os Cristãos no Egito acolheram com satisfação o reconhecimento do Natal como feriando público
O Presidente Abdel-Fattah El-Sisi, em seu discurso de Natal na Catedral da Natividade de Cristo, exortou os Egípcios a permanecerm unidos e esperançosos, enfatizando o amor, o respeito e a solidariedade nacional como fundamentos da harmonia social. Ele alertou contra a divisão e expressou seu apreço pela histórica comunidade Cristã do Egito.
Para muitos Cristãos Egípcios, esses acontecimentos sinalizam um progresso cauteloso, e não segurança total. O reconhecimento não apaga a discriminação, nem a visibilidade elimina a vulnerabilidade. No entanto, a capacidade de celebrar abertamente, de ouvir hinos cantados sem medo e de se reunir em família e em congregação continua sendo particularmente significativa neste momento.
Alegria entrelaçada com tensão
Em conjunto, essas experiências variadas em todo o Oriente Médio revelam uma realidade persistente para os Cristãos da região: momentos de alegria genuína raramente vêm desacompanhados de tensão. A celebração coexiste com o medo; a esperança, com a tristeza.
No entanto, o próprio Natal fala precisamente a esses espaços. A encarnação não ocorreu em conforto ou certeza, mas em meio a deslocamentos e ameaças. Para os Cristãos do Oriente Médio, essa verdade teológica é vivida, e não abstrata.
“A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotam” (João 1.5).
À medida que os crentes se reúnem em igrejas, casas e – quando possível – praças públicas, suas celebrações testemunham não apenas a fé, mas também a perseverança. Elas lembram à Igreja global que a sobrevivência das comunidades Cristãs no Oriente Médio não é apenas uma questão de herança, mas de testemunho vivo.
Como você pode orar
Peça ao Senhor – Emanuel, Deus conosco (Isaías 7.14) – que se aproxime especialmente de nossos irmãos e irmãs em todo o Oriente Médio. Ore para que, em meio às adversidades, as celebrações Natalinas deste ano fortaleçam a coragem, aprofundem a unidade e renovem a esperança. Peça que, mesmo sob a sombra de conflito, a luz de Cristo continue brilhando, sustentando aqueles que dão testemunho nas terras onde o Evangelho se encarnou pela primeira vez.